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Rolê merda: os dias em que pedalar foi a pior decisão tomada.

Hoje, chorando desesperada, no tal do Hillesheim (Águas Mornas / SC) que o marido queria tanto conhecer.

A coisa menos provável que se espera dum post em um blog pró-bicicletas, é que andar de bike às vezes é bem bosta. Bem merda mesmo. Mas, vejam bem, meus caros, chegou esse dia.

Tem dia que o rolê é medonho. Que a gente volta para a casa arrependido de ter saído. Porque se arrepender no meio e chegar em casa feliz é normalzão, rola sempre. É recomendado, inclusive. Depois de sofrer numa subindona interminável, as dopaminas invadem o nosso cérebro e ficamos realizados olhando pra baixo e vendo tudo aquilo que vencemos. Ainda tem a glória da descida, a celebração-mor do ‘eu consegui’.

Mas tem rolê que chegar lá em cima é um misto de ‘será que acabou mesmo, pra sempre?’ com ‘caralho, poderia ter ficado em casa rolando barra no Facebook, poderia tá engordando, matando alguém, mas vim nessa filial do inferno sofrer’.

Tem dias que a gente sai para inovar, fazer um caminho que nunca fizemos antes e… se perde. Daí tu tá entre o nada e a puta-que-pariu e não faz a menor ideia do que é menos pior: voltar ou seguir. Normalmente, envolve um trajeto em que você subiu muito, desceu pra caceta e voltar significa subir um monte de novo.

Na Trilha da Antena (Florianópolis /SC) plena e feliz em ter acordado cedo para pedalar.

Às vezes alguém que te ama incondicionalmente – aquele tipo de pessoa que levanta cedo e dá comida pro gato para você continuar dormindo – te mete numa roubada. Se perde; a estrada não passa nem trator; te convida para uma temporada de chuva e terror no inverno recorde desde que os homens anotam as temperaturas; a inclinação da estrada envolve o queixo no guidão e por aí vai {ad infinitum}.

Rolê merda pode ser com quem a gente ama, mas é pior ainda se for com alguém que a gente não morre de amores. Pode ser em grupo, pode ser ideia dum só, pode ser ideia de vários e sempre pode ser ideia de nós mesmos.

Em cicloviagem no inverno recorde de SC (2013). Na Serra da Garganta (Anitápolis /SC) que fiz com 60 litros de bagagem usando uma Caloi City (a bicicleta ao fundo é do Lu Trevisol, idealizador da cilada).

Para lidar com a situação dolorosa, existem alguns que fazem a monalisa e fingem que o chão não tá se abrindo aos seus pés; os que levam paçoquinha e dividem com os angustiados e aflitos; os que pedem para o exército seguir sem eles – pois não irão mais ajudar na batalha. São nesses momentos que conhecemos o âmago de quem chamamos para pedalar.

Pra mim, que graças a deusa não fui socializada com base na masculinidade, a solução é sempre a mais elegante: xingar todos em volta, ficar com ânsia de vômito, ter a mais absoluta certeza que não consigo respirar, arremessar a bicicleta o mais longe possível, sentar e chorar copiosamente. Daí eu levanto, vou mais um pouco e repito o faniquito quantas vezes mais achar necessário, até chegar ao fim da jornada do capiroto.

Com cobertor emprestado em Urubuci / SC depois de dias congelando na cicloviagem supracitada e todas as roupas encharcadas.

A parte boa disso tudo, é que passados alguns dias do martírio, vira sempre uma história boa para contar. Você ganha o direito vitalício de zoar a pessoa que escolheu o trajeto, você será sempre zoado pelo sofrimento dispendido e sempre poderá contar vantagem quando alguém disser que o pedal foi foda: “mas é que você nunca fez tal pedal, aposto”. Daí, meus amigos, pode começar a escrever um livro, que a disputa nunca terá fim.

E no outro dia, estamos lá, de novo, pedalando e vendo se dessa vez vai ser melhor.

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Esse post é dedicado ao Vinícius, que me enche de amor, mas também adora me meter numa cilada sem fim. Está perdoado, estou pronta para a próxima – mas não avacalha. ♥

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