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Moça, você está autorizada a empurrar.

empurre-essa-bicicleta-pedal-glamourUm surto de autoimportância pode nos fazer crer que somos o centro das atenções. Normalmente não acontece quando compramos um vestido novo ou usamos aquele batom vermelho bafo, mas sim quando nos sentimos fazendo algo de errado. Comumente, ao começar a pedalar, achamos que todo o planeta terra está prestando atenção na nossa falta de coordenação motora, no medo dos nossos olhos e na nossa lentidão de iniciante.

De verdade, ninguém se importa. As pessoas estão ocupadas demais com seus próprios dramas para sair julgando você. Mesmo assim, tem hora que a gente congela. Pode ser porque um motorista passou perto demais, porque ficamos confusas em como agir num cruzamento ou simplesmente porque o nosso corpinho não sabe lidar com tudo aquilo.

Daí a gente se faz mentalmente aquela pergunta ‘mas que raios eu fui inventar isso?’ ou a famigerada ‘o quê eu tava pensando da vida, dels?!’. Afinal, sair da zona de conforto não é tarefa fácil e começar a pedalar nos lembra disso a cada segundo. Sendo assim, o que podemos fazer na hora que o desespero bate? Ora, empurrar.

Por muito tempo, eu mais carreguei a bicicleta do que pedalei. Eu só andava na ciclovia. Fim. Qualquer outro metro fora dela, eu sentia que algum imbecil iria me moer. Então eu parava e empurrava. Empurrava por quilômetros. Levava tempo. Só que a cada dia, ao empurrar, eu percebia o comportamento dos motoristas, entendia melhor o trajeto que estava fazendo e ia ganhando autoconfiança.

Foram meses me sentindo ridícula por empurrar, mas também foram momentos decisivos para que eu não desistisse. Naquela época, eu descobri que respeitar meus medos, mas também enfrentá-los, era vital para que a a bicicleta se tornasse o meu meio de transporte principal.

Então, moça, se você estiver apavorada, não se preocupe: você também está autorizada a empurrar. Está permitida a se sentir observada, julgada e, veja bem, admirada. Porque, no fim das contas, você está – ainda que devagarinho – criando uma nova rotina. E, calma, é aos poucos que as coisas vão dando certo. Na próxima vez que você pensar em desistir de ir pedalando porque está com medo, lembre-se: em caso de dificuldade, você sempre poderá empurrar.

+ Para animar a pedalar por aí:

 Imagem via Modices.

Vamos juntas?

Mulheres lindas que estavam no último Pedal Leve
Mulheres lindas que estavam no último Pedal Leve

Lucia não se sente muito bem com o seu corpo, gostaria de se movimentar mais e se sente livre ao andar de bicicleta. Desde que de dia e jamais sozinha. Patricia vê a bicicleta como uma bela maneira de viver a cidade e fazer seus rolês sem perder muito tempo, mas na sua memória sempre ecoam os comentários que os caras fazem sobre o seu corpo (ou sobre o corpo das outras meninas). Julia sai tarde do trabalho, odeia pegar o madrugadão, sente medo no ponto de ônibus e amaria chegar em casa suada após o pedal.

Eu inventei a Lucia, a Patricia e a Julia, mas elas não são completamente fictícias. Elas são eu e tantas outras mulheres por aí. Se milhares de motivos afastam as pessoas de usar a bicicleta como esporte, transporte ou lazer, outros dois milhões de motivos se somam a estes quando você é mulher. Sair de casa sozinha, de noite ou frequentar grupos com muitos homens, acabam sendo atos de coragem. O resultado disso? Poucas mulheres nas ruas. Muitas vezes, nenhuma.

Se nos grupos de pedal o ambiente muitas vezes é hostil, pedalar pela rua sozinha pode ser ainda pior. Tenho pensado nisso intensamente. Cada dia escuto relatos semelhantes. Se não podemos – ainda – mudar esse cenário, então por que não nos unimos e vamos juntas?

A ideia é simples, mas pode ser revolucionária. O melhor: não precisa de muito. Pode ser um grupo no Facebook que una as mulheres, uma oficina que ensine mecânica por uma ciclista mais experiente, uma amiga que junte com uma conhecida e façam o trajeto juntas. Então, da próxima vez que você desistir de pedalar porque está com medo, lembre-se: certamente, há outras tantas mulheres querendo o mesmo que eu e você.

/// Para saber mais

/// Se você souber de algum grupo semelhante, me avisa para começarmos a fazer uma lista de soluções. Pode ser?

Foto Vinícius Leyser da Rosa.