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Bicicleta como esporte para quem tem o mínimo de senso estético. Sim, é possível.

“You could be a rolling billboard Ornot” (Você pode ser um outdoor ambulante ou não). Essa é a tagline da americana Ornot, que se dedica a fazer roupas de ciclismo minimalistas. Para mim, essa frase é a síntese do que vive o ciclismo enquanto esporte, esteticamente: uniformes abarrotados de marcas, patrocínios e beijos para a família.

A gloriosa Rapha, incansável combatente do péssimo gosto no ciclismo. Via.

Eu sei, provavelmente estarei mexendo num vespeiro aqui e já aviso que se você acha maravilhosa a maneira como o ciclismo se mostra ao mundo hoje, pode fechar essa aba e continuar a vida normalmente. Agora se você tem o mínimo de senso estético, eu diria que é quase impossível passar incólume pelo show do horrores que são os uniformes. Faço aqui uma exceção para a galera das fixas e do enduro, que possuem uma estética tão bem resolvida quanto própria.

Tour de France

UCI divulgou no dia 15 as camisas do World Tour em 2017. Via.

Como todos os esportes, o ciclismo tem os seus trendsetters, as suas referências. Os caras picas das galáxias que escalam montanhas em velocidades que você mal consegue manter no plano, sprintam a 70km/h e possuem resultados sobre-humanos (as minas também possuem essas habilidades, mas infelizmente não são reconhecidas como). Essa bela junção de potência & técnica do ciclismo é celebrada nas voltas que acontecem todos os anos, em especial, no grandioso Tour de France.

Tour Down Under rolando agora em 2017, mas pelas roupas a gente chutaria pelo menos uma década atrás, né non? Via.

O Tour, por sua vez, tem as melhores equipes do mundo participando com seus uniformes. Além disso, a prova em si possui toda uma dinâmica para celebrar o melhor de cada categoria com suas camisas exclusivas, como a de escalador, velocista e líder geral. Daí a gente imagina que toda essa visibilidade e grana injetada por patrocinadores resulta em uniformes lindos, objetos de desejo, obras sofisticadas do vestuário? Na-na-ni-na-não. Com raríssimas exceções, os uniformes são pavorosos, parecem presos eternamente no começo dos anos 90 e possuem mais marcas estampadas do que camiseta de gincana do ensino médio.

E, veja bem, colega, são justamente esses caras que dão a letra do que é massa no esporte. Então, como você pode imaginar, o troço já desanda lá de cima.

Diante da falta de opções ou pela grande vontade de se sentir o Froome, a galera compra a torto e a direito os uniformes que foram usados no Tour. Vale ressaltar que no Brasil, boa parte deles é inspired, um nome fashionista para ‘falsificado’ mesmo. O que, acredito eu, é um grande desserviço para a imagem do ciclismo como esporte no mundo: um monte de roupas feias pedalando por aí (e fakes ainda por cima). Ok se você gosta de usar esses uniformes, mas sendo assim, recomendo que você compre os jerseys originais e então apoie a equipe (e não os seus falsificadores).

Para não mentir sozinha: confira aqui os uniformes de 2017 divulgados pela UCI.

Por que isso é importante?

Não é à toa que os demais esportes passaram a investir massivamente em como eles se apresentam. Um uniforme bonito ajuda a representar toda a nobreza envolvida nas conquistas e treinos de ser um(a) atleta. Você precisa se identificar com algo para admirá-lo. Uniformes podem ser muito úteis nisso. Além de identificações, eles são ferramentas para formar unidades, grupos e conceitos.

Pode parecer balela (e, pra muita gente talvez seja mesmo), mas um esporte com uma identidade visual pobre deixa de atrair pessoas para se envolverem com ele. Provavelmente o número de pessoas usando um uniforme de algum(a) grande ciclista fosse muito maior se, para começo de conversa, elas achassem o uniforme bonito.

Quando entramos no cenário ‘mulheres no ciclismo’, a coisa fica ainda pior. As mulheres aprendem desde pequenas que o como elas aparentam vale muito (às vezes até mais do que como elas realmente são) e sair vestindo algo que a desagrada pode ser bem difícil. Além do quê, quem vai comprar uma roupa que não se sente bem com ela? Você pode até achar que isso não importa, mas eu já deixei de comprar inúmeras vezes alguma roupa de ciclismo porque achei medonha e conheço inúmeras histórias iguais a minha.

Além do quê, convenhamos, uma indústria que só fabrica roupas feias beneficia a quem? Então mesmo que você ache que está tudo bem, imagina que massa seria ter mais opções bonitas para quem não acha? E vale ressaltar que, majoritariamente, os uniformes são fabricados com lycras (e polímeros variados) que ficarão para sempre no planeta sem se decompor, então esperamos que a manufatura disso seja – no mínimo – melhor empregada.

Brasil, o país do MTB

Corre a lenda que o Brasil é o país do MTB. E a galera do MTB curte muito um uniforme de equipe, seja uma equipe profissional ou uma própria. Eles também curtem muito as já citadas camisas do Tour de France, que é uma prova de estrada, o que me dá uma pequena sensação de que faltam sim referências no próprio MTB (tão vendo como a estética é mal resolvida?).

Diante do meu grande estudo empírico de análise de camisas de ciclismo, as do MTB são as que me dão mais medo. Grafismos excêntricos, chamas, vetores de morros, montagens primitivas, frases em caixa alta, cores com um contraste injustificável são elementos frequentes dos amantes da terra e da lama. Pior do que as camisas de equipe, só as camisas fabricadas exclusivamente para algum evento, quando o clã vai subir alguma temerosa montanha, fazer uma pequena viagem ou participar de alguma prova. Essas sim são de sangrar os olhos.

Digamos que os speedêros não sejam muito diferentes, mas pelo menos eles usam camisas de equipes da mesma modalidade que estão praticando, o que faz meu raciocínio lógico muito feliz.

Roupas de Ciclismo “Femininas”

Se o ciclismo em geral já tem uns uniformes medonhos, imagina você, o que são os uniformes desenhados (por homens em sua maioria) para as mulheres. Eu já respondo: flores de hibisco rosas, arabescos deformados rosas (claro, né) ou ainda flores & arabescos deformados rosas com algum fundo esquisito. Você também pode incluir batons, beijos, lacinhos, joias e tudo mais que for ‘feminino’. De preferência, tudo rosa.

Quanto a modelagem, eles até podem dizer que existe diferença entre a masculina e a feminina, mas olha, tá convencendo não. Dificilmente uma mulher veste aquilo e não parece um grande saco de batatas – o que, convenhamos – já nos deixa insegura só de pensar, imagina então pedalar com isso.

E não tem solução?

Machines for Freedom, orgulhosamente feita por e para mulheres. Via.

Por um tempo, eu achei que não, mas cada dia vejo novas marcas dispostas a quebrar com a tradição de uniformes tétricos. A inglesa Rapha, por exemplo, revolucionou o que é um jersey e trouxe com ela toda uma nova maneira de se vestir para pedalar. Uma pena que cada peça dela custe o PIB de um país pequeno. Vale ressaltar que a Rapha é tão concisa e lançadora de tendências, que os eventos que ela cria são verdadeiros sucessos para quem pedala (como o Womens100 e o Festive500).

Maap. Via.

 Na gringa é mais fácil achar roupas bonitas, gosto muito da supracitada Ornot, da Maap, Machines For Freedom, Cycle Like a GirlVegan Athletic Apparel, Mescal, Black Sheep Cycling, Ten Speed Hero, ChapeauWe Are Omnium. Só para citar algumas, porque como você pode ver, gasto bastante tempo pesquisando sobre isso. O problema é trazer pra cá sem ser taxado, além do câmbio e da incerteza de quando e se irá chegar.

A catarinense Kirschner. Via.

No Brasil, algumas marcas já começam a despontar e vão muito bem, obrigada, desenhando uniformes que dão vontade de usar sempre. Eu adoro a Lacarrera Brasil (no meu instagram, isso fica bem claro), a Kirschner Brasil, a Veloma e a curitibana Mynd (por causa modelagem bem feita). Não deixo de reconhecer os esforços da Free Force, da Curtlo e da Woom em sair um pouco do óbvio, mas ainda com muito chão pela frente.

Lacarrera Cycling Wear. Via.

Veloma. Via.

Final Stage

A bela Chapeau! Via.

De maneira geral, o ciclismo possui um cuidado com a estética (e também um marketing) bem meia boca. Porém, nada que seja irreversível. O bom disso é que se pode renovar a aparência sem deixar de respeitar a estética tradicional do esporte, afinal sabemos claramente o que é um uniforme de futebol, basquete ou de vôlei. Com o ciclismo dá para fazer o mesmo.

Vale lembrar também que muita gente acaba comprando em gigantes multinacionais de esporte, com seus preços atraentes, porém com peças de qualidade questionável. Lá, ao menos, eles acertam em evitar estampas e utilizam paletas de cores atraentes.

O cenário tem melhorado, em geral graças a pequenos empreendedores que cansaram de ver coisas feias em cima de bicicletas. Ainda entram em questão as bicicletas, capacetes, sapatilhas, luvas e demais acessórios, que são mais difíceis de produzir do que camisetas e bermudas e serão temas de um outro post.

E vocês? O que acham da estética do ciclismo atual? Conhecem alguma marca lindona que merece destaque? Conta aí! O melhor sempre rola depois que o post vai pro ar.

Saiba mais (em inglês)