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Parece que estes homens possuem uma opinião urgente sobre ciclismo feminino

O Global Cycling Network é um canal britânico no youtube que produz um volume impressionante de conteúdo de qualidade sobre ciclismo de estrada. Eles contam com meia dúzia de apresentadores, sendo destes apenas uma mulher, Lucy Martin. Até aí (até que) tudo normal, exceto pelo fato que:

  • A Lucy quase não aparece em vídeos e, quando aparece, normalmente trata sobre assuntos femininos;
  • Nos vídeos em que aparece, ela recebe comentários sexistas, babacas e que sempre questionam as capacidades dela;

Vale lembrar que Lucy Martin, além de apresentadora do GCN, também é:

  • Ciclista profissional aposentada com grandes feitos, competindo inclusive nas Olimpíadas de Londres 2012.;
  • Ela também é coordenadora de comunicação & mídia digital da Orica Scott.
Lisa Brennauer conversa com Lucy Martin sobre as novas bicicletas da Canyon focadas no público feminino.

Entretanto, nenhuma das suas expertises a poupam de comentários como estes:

1. Coisas de homens são…. coisas de homens:

“Eu não me importo que elas possam fazer qualquer coisa igualmente [aos homens]. Não estrague um programa de homens colocando uma mulher nele. Você colocaria uma mulher no Top Gear? HAHAHAHA não”
2. Muito bacana, mas dá para melhorar, né, queridinha?

“Legal, é bom ter uma visão feminina em todas as coisas de ciclismo. E tenho certeza que a Lucy pode crescer como apresentadora convidada / apresentadora”

3. Tem algo mais importante do que tudo que você disse ali, Senhora Profissional: 

“Mais importante é aprender a trocar marchas! Veja no minuto 2:19, mas que porra!?”

Hoje a GCN publicou um vídeo com a Lucy sobre os novos lançamentos femininos* da alemã Canyon e, de novo, os comentários questionando as capacidades dela rapidamente surgiram. Desde uma suposta falta de desenvoltura para apresentar o canal, até o incrível fato da sua camiseta da GCN (de novo, supostamente) não ser feminina e, por isso, estar com mangas dobradas.

4. Aquela sutileza da mulher sendo lembrada que é (somente) objeto de desejo por um cretino:

“Como homem eu gostei desse vídeo. Por favor, deem a ela mais tempo de aparição”

5. Opa, parece que este homem é legalzão, mas ele tem um conselho fashion para produção:

“Agora se vocês tivessem uma camiseta GCN especificamente para mulheres, as mangas não precisariam ser dobradas. Ou seriam isso o estilo pessoal da Lucy?”

6. O Tom é tão massa como apresentador. A Lucy, bom…

“O jeito nervoso da Lucy me lembra o Tom. Mas sua desculpa é que ela é novata e nervosa. Tom é apenas desajeitado a maior parte do tempo.”

Tomar como referência os comentários nos vídeos pode não ser uma estatística muito apurada, mas certamente expõe e exemplifica o como é difícil ter mulheres como protagonistas no ciclismo, ainda que estas apresentem todas as credenciais para um trabalho competente.

Seria muito reconfortante se fosse um caso isolado de pequenos boçais que ainda habitam neste século, mas infelizmente essa é uma prática rotineira na vida das mulheres em todos os campos, seja no trabalho, no lazer ou no esporte.


* Fato que por si só já é louvável, considerando que não muito tempo atrás as marcas insistiam em dizer que não haviam diferenças consideráveis nas dimensões femininas e masculinas que justificassem uma geometria diferenciada – dentre outras asneiras.

// Para mais informações sobre os lançamentos da Canyon, vale dar um confere na reportagem do Total Women’s Cycling também.

// Prints na página do youtube do GCN no dia 04/05/2018

// Vale dizer que também tiveram comentários positivos sobre a Lucy, mas enquanto houverem comentários cretinos, teremos um problema.