Percepções

Bicicletêra

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Foto Vinícius Leyser da Rosa

Quando eu comecei a andar de bicicleta, um mundo de coisas novas surgiram na minha cabeça. Foram tantas novidades, que temi me apaixonar demais pelo assunto e, de repente, me tornar uma ciclista.

Foi então que me disseram que, já que estava andando por vários cantos da cidade, eu deveria começar a usar um capacete. Pela-mor-de-deus, um capacete? Seria o fim. Eu me tornaria de vez uma ciclista.

Mas aí me explicaram “o porquê” (entre aspas, porque é bem controverso!) de um capacete eu fui convencida: melhor ser alguém de capacete parecendo uma ciclista do que colocar minha segurança em risco. Comecei a usar o artefato mais feio da minha existência e torcia para não encontrar nenhum conhecido na rua.

Eu tinha pânico do título. Eu não queria nada da vida. Não queria me tornar nada. Só queria chegar rápido na faculdade e, por acaso, seria de bicicleta. Ciclistas, para mim, seriam seres chatos, preocupados com a performance e usando shorts de lycra. Pra mim, era o mesmo que o terror-visual: capacete, lycra e vestimentas com patrocínios, cores e marcas feias. Além do que, quando eu encontrava com um destes, na ciclovia ou na rua, já me desesperava, ia para o cantinho, para dar espaço para os velozes seres passarem logo por mim. Eu sabia que era lenta e desajeitada e não queria nem atrapalhar e nem brigar com ninguém.

O tempo passou, este debate interno foi sendo esquecido e eu conheci gente que pedalava, mas não se encaixavam no perfil de ciclista que eu tinha pré estabelecido. Foi um alívio saber que existia vida além da lycra e eu pude seguir com meu capacete rayo-laser.

Mas, afinal, qual é o problema de ser ciclista? Hoje fica estranho entender, porque já pedalo e já sou ‘a-amiga-ciclista’ de muita gente e pra mim, tanto faz ser chamada assim ou de qualquer outra forma. Mas naquela época, seria o mesmo que jogar a minha personalidade no lixo. Eu preferia ser vista como uma bêbada rebelde, do que achassem que eu estava praticando algum esporte.

A verdade é que os ciclistas não possuem, necessariamente, uma fama muito legal. A palavra tem um peso esportivo que não condiz com todos. É mais um rótulo que limita e desencoraja. Tanto que em inglês, muitos ativistas preferem usar a expressão bicyclist. Para eles a palavra cyclist tem uma conotação negativa e faz com que quem não ande de bicicleta, acredite que para ser um ciclista você precisa ter uma “identidade” especial ou fazer parte de uma subcultura.

Então, não se apegue com o título de ciclista. Não se importe em caber ou não neste rótulo – ou em qualquer outro. Diga que você usa a bicicleta, que você é uma pessoa de bike, diga qualquer coisa. Foi o que eu fiz e funcionou super bem.

No fim das contas, me tornei uma ciclista famosa por estar sempre de vestido e saia ou por pedalar distâncias maiores de tênis e lencinho na cabeça. Aprendi também a escolher peças que não comprometessem o meu estilo e que fossem também boas para pedalar. Sempre lembro as pessoas que a bicicleta não precisa (e nem deve) limitar o seu vestuário. Então, se um de seus problemas é não parecer um triatleta com óculos de lentes laranjas e capacetes vindos de um mundo renderizado-paralelo, pode arranjar outra desculpar: pedalar pode e deve sim, ser um ato de muito estilo.

P.S.: Se você não quiser usar capacete, está tudo bem. Não é obrigado por lei e este é um debate bastante controverso – e é, sem dúvidas, assunto para ser discutido mais além.