Articles by: Naiara Lima

Cycle Chic: o que é, o que come e onde se compra

O Cycle chic é um movimento que busca incentivar e desmistificar o pedal urbano.

Cycle Chic é um dos assuntos que mais gosto. Posso passar horas no Pinterest colecionando imagens de gente que anda de bicicleta e respeita o seu estilo. Pode parecer que não, mas este é um movimento super recente. Foi criado por Mikael Colville-Andersen em 2007, quase sem querer, ao publicar a foto de três ciclistas estilosas usando a bicicleta na cidade.

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Foto de Mikael Colville-Andersen, o criador do termo ‘cycle chic’. Fonte Triba Space.

De modo resumido, o Cycle Chic é um movimento que prova que você não precisa ser nenhum atleta ou hipster para usar a bicicleta na sua rotina. O movimento não é sobre bicicletas, mas sim sobre pessoas andando de bicicleta. É também um símbolo sobre como as nossas cidades devem evoluir e criar espaços mais habitáveis.

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Moças garbosas & poderosas & da vida real. Fonte Who What Wear.

O movimento tem um ‘Manifesto’, que é bastante divertido – e eu acredito, zoado. É uma maneira inusitada para chamar atenção para a ideia de que bicicleta não é só esporte ou lazer. É sim, um eficiente meio de transporte.

• Escolho pedalar chique e, sempre que possível, vou preferir o estilo ao invés da velocidade.

• Assumo minha responsabilidade em contribuir visualmente para uma paisagem urbana estéticamente mais agradável.

• Estou ciente de que minha mera presença na paisagem urbana irá inspirar outras pessoas sem que eu seja rotulado como “cicloativista”.

• Pedalarei com graça, elegância e dignidade.

• Escolherei uma bicicleta que reflita minha personalidade e estilo.

• Irei, contudo, considerar minha bicicleta como meio de transporte e como um mero complemento do meu estilo pessoal. Permitir que minha bike chame mais a atenção do que eu é inaceitável.

• Eu iria garantir que o valor total de minhas roupas sempre seja superior ao valor total de minha bicicleta.

• Usarei acessórios de acordo com os padrões da cultura da bicicleta e comprarei, quando possível, um protetor de corrente, pedestal, guarda-saia, paralamas, campainha e cestinha.

• Respeitarei as leis de trânsito.

• Recusarei utilizar qualquer roupa de ciclismo. A única exceção sendo um capacete – caso eu escolha exercitar minha liberdade pessoal e decida usar um.

(manifesto retirado da Revista Velô #5) 

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O Cycle Chic ganhou o mundo. Estas são fotos do Cycle Chic Barcelona.Enfim, eu poderia juntar 30mb de referências aqui e não iriam acabar. O importante é que muita gente usa a bicicleta para ir onde bem entende, do jeito que bem entende e isto não é nenhum poder sobrenatural.

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O Preferred Mode é um site especializado em fotografar ciclistas estilosos em NY.

E se você pensa que isto é coisa de europeu, está bem enganado. Prova disto é a Aline, que é daqui de Floripa e super faz jus ao título ‘Cycle Chic’. A Aline, inclusive, tem o Bela na Bike, um blog super legal com dicas para ser cycle chic em inúmeras situações e ainda alimenta o Floripa Cycle Chic. Vale os cliques 😉

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Foto Fabricio Sousa.

Bom, se você tinha medo de parecer um ciclista-performance-tour-de-france, agora já sabe que existe vida além da lycra. Toda vez que bater um desespero, lembre-se de que antes da Nasa fazer travesseiros, era super normal pedalar com as roupas do dia a dia. E, se mesmo assim, bater um desânimo, joga ‘cycle chic’ no Pinterest e se inspire. Não tem erro.

Para saber mais / Referências

++++ Revista Velô #5

++++ Cycle Chic Copenhage

++++ Copenhagen Cycle Chic: Redefining Bike Culture One Turn at a Time

++++ Cycle chic: Style on two wheels

Festa de boa na lagoa

festinha-012Sábado era dia de festinha no Canto da Lagoa – bairro lindão daqui de Florianópolis. Tava fazendo uns 90ºc na rua (ok, uns 27ºc) e o céu parecia anunciar uma chuvona a qualquer momento, mas como sou uma menina muito corajosa, fui assim mesmo.

festinha-022Coloquei um vestido que adoro para pedalar, porque ele é larguinho embaixo e tem botões na frente, pesando a frente do vestido e me poupando de fazer a Marilyn Monroe no meio da rua. Escolhemos um trajeto mais tranquilo, passando por dentro dos bairros e evitando as ruas e avenidas mais movimentadas. Assim a ida para a festa vira também um passeio.

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Fazendo a linha ‘Juliana está deeeeeeeeesmaiada’ com este calor.

Apesar do caminho relax, no meio do trajeto tem o Morro da Lagoa, que é inevitável.  Inicialmente, o morro parece uma barreira intransponível (180m de elevação) e apesar dele exigir respeito, logo a gente aprende a superá-lo. Notem o vestidinho fazendo bem o seu papel ‘anti vexame’.

IMG_7026Doze quilômetros depois, cheguei ao destino meio suada, mas nada muito dramático, ainda mais considerando que foi um dia bem quente. Nessas horas, é só dar um tempinho antes de entrar, tomar uma água, que logo a cara ‘normal’ está de volta. Como era uma festinha tranquila, não rolou uma super produção tapete vermelho, então o pouco de reboco que coloquei na cara, não ‘desmanchou’ com o calor.

festinha-042 Ainda na entrada, fui recebida pelo Monstrinho, o dona da festa. Notem a minha destreza / linda pose ao segurar a bike e bater um papo com o gato. Aprende aí, Vogue.

festinha-05E a volta foi bem tranquila, porque já era tarde e o movimento do trânsito já tinha diminuído bastante. Lembrando que, mesmo com o movimento menor, é sempre necessário ir com calma e atenção.

Fotos Vinícius Leyser da Rosa

Começando a Pedalar: Luana

lu-e-euA Luana leva quase 4 horas por dia só para ir e voltar do trabalho e num-guenta mais esta situação. Por morar no continente e trabalhar na ilha, sofre com um dos piores congestionamentos da região – dentro de um ônibus lotado. Diante disto, eu e ela começamos a agilizar de um jeito dela ir de bicicleta para o trabalho – ganhando tempo & qualidade de vida.

lu-e-eu3Combinei com ela de encontrá-la na Beiramar de São José – local próximo de sua casa e com uma ótima ciclovia. Ela levou a bicicleta dela, eu e o boy magia demos uma olhada e constamos muito problemas: pneus rachados, a troca de marchas não funcionava, um pedal estava quebrado e por aí vai.  Demos uma ajeitada, mas aproveitamos uma loja da região para mostrar para Lu outras opções de magrela.

lu-e-eu2 O começo do passeio foi tranquilo, com a Beiramar pouco movimentada. Fui dando algumas dicas iniciais para a Lu de postura, para que o trajeto seja menos cansativo e mais contemplativo.

lu-e-eu4Indo em direção a uma bicicletaria próxima, para apresentar para a Luana modelos de bicicletas ideais para o uso que ela irá fazer. Neste momento, troquei de bicicleta com a Lu, para que ela sentisse a diferença que seria ao investir em um modelo mais adequado.

lu-e-eu5 A Luana adorou curtir a paisagem enquanto pedalava.

lu-e-eu6Preparando a Luana para o seu primeiro contato com o trânsito, que tem acessos bem precários e pequenos trechos que são um pesadelo, pelo péssimo planejamento urbano para todos que não usam um carro.

lu-e-eu7 E, como nem tudo são flores, a Lu logo se deparou com um caminhão de concreto no caminho.

lu-e-eu8 Logo o trajeto ficou mais tranquilo e já estávamos bem perto da bicicletaria.

lu-e-eu9 Na volta, enfrentamos uma travessia complicada para retornar para a ciclovia.

lu-e-eu10E o final do passeio, com direito a foto para registrar o momento. Estas foram as primeiras pedaladas da Luana, que se saiu super bem. Em breve, a Lu vai comprar uma bicicleta nova e começaremos a fazer pequenos trajetos em um trânsito mais tranquilo, para que ela ganhe experiência e confiança, para enfim usar a bicicleta como meio de transporte e conduzir a sua vida do jeito que bem entender 🙂

Fotos Vinícius Leyser da Rosa

Bernardo

Meu carro é uma bicicleta

Bernardo
Foto Vinícius Leyser da Rosa

Tô eu e o Vini voltando na Beiramar de São José, quando decidimos parar um pouco na pista de skate / bicicleta que tem lá. O Vini vê as rampas, se empolga e brinca um pouco e chega um menino miúdo e diz ‘Pô, tio, é só isto que tu sabe fazer?’. Era o Bernardo, cheio de personalidade e destilando desafios para qualquer forasteiro que aparecesse por ali.

Bernardo tem 11 anos e uma vivência toda especial com a cidade. Era mora há 4 km dali e vai de bicicleta para onde bem entende. É um menino livre. Perguntei para ele como ele fazia para chegar até ali e ele respondeu:

– De bicicleta, ué. Minha bicicleta é o meu carro. É minha moto também. Só que tunado, sabe?

– Tunado por quê, Bernardo?

– Ué, não tenho freio. Então é tunado.

– Não tem freio por quê?

– Ah, nunca teve. Quer dizer, teve né, mas foram muitos tombos por aí.

– Toma cuidado aí, menino.

– Eu, hein, tia. Vou é procurar um bar por aqui. Quero comprar uma coca.

Bicicletêra

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Foto Vinícius Leyser da Rosa

Quando eu comecei a andar de bicicleta, um mundo de coisas novas surgiram na minha cabeça. Foram tantas novidades, que temi me apaixonar demais pelo assunto e, de repente, me tornar uma ciclista.

Foi então que me disseram que, já que estava andando por vários cantos da cidade, eu deveria começar a usar um capacete. Pela-mor-de-deus, um capacete? Seria o fim. Eu me tornaria de vez uma ciclista.

Mas aí me explicaram “o porquê” (entre aspas, porque é bem controverso!) de um capacete eu fui convencida: melhor ser alguém de capacete parecendo uma ciclista do que colocar minha segurança em risco. Comecei a usar o artefato mais feio da minha existência e torcia para não encontrar nenhum conhecido na rua.

Eu tinha pânico do título. Eu não queria nada da vida. Não queria me tornar nada. Só queria chegar rápido na faculdade e, por acaso, seria de bicicleta. Ciclistas, para mim, seriam seres chatos, preocupados com a performance e usando shorts de lycra. Pra mim, era o mesmo que o terror-visual: capacete, lycra e vestimentas com patrocínios, cores e marcas feias. Além do que, quando eu encontrava com um destes, na ciclovia ou na rua, já me desesperava, ia para o cantinho, para dar espaço para os velozes seres passarem logo por mim. Eu sabia que era lenta e desajeitada e não queria nem atrapalhar e nem brigar com ninguém.

O tempo passou, este debate interno foi sendo esquecido e eu conheci gente que pedalava, mas não se encaixavam no perfil de ciclista que eu tinha pré estabelecido. Foi um alívio saber que existia vida além da lycra e eu pude seguir com meu capacete rayo-laser.

Mas, afinal, qual é o problema de ser ciclista? Hoje fica estranho entender, porque já pedalo e já sou ‘a-amiga-ciclista’ de muita gente e pra mim, tanto faz ser chamada assim ou de qualquer outra forma. Mas naquela época, seria o mesmo que jogar a minha personalidade no lixo. Eu preferia ser vista como uma bêbada rebelde, do que achassem que eu estava praticando algum esporte.

A verdade é que os ciclistas não possuem, necessariamente, uma fama muito legal. A palavra tem um peso esportivo que não condiz com todos. É mais um rótulo que limita e desencoraja. Tanto que em inglês, muitos ativistas preferem usar a expressão bicyclist. Para eles a palavra cyclist tem uma conotação negativa e faz com que quem não ande de bicicleta, acredite que para ser um ciclista você precisa ter uma “identidade” especial ou fazer parte de uma subcultura.

Então, não se apegue com o título de ciclista. Não se importe em caber ou não neste rótulo – ou em qualquer outro. Diga que você usa a bicicleta, que você é uma pessoa de bike, diga qualquer coisa. Foi o que eu fiz e funcionou super bem.

No fim das contas, me tornei uma ciclista famosa por estar sempre de vestido e saia ou por pedalar distâncias maiores de tênis e lencinho na cabeça. Aprendi também a escolher peças que não comprometessem o meu estilo e que fossem também boas para pedalar. Sempre lembro as pessoas que a bicicleta não precisa (e nem deve) limitar o seu vestuário. Então, se um de seus problemas é não parecer um triatleta com óculos de lentes laranjas e capacetes vindos de um mundo renderizado-paralelo, pode arranjar outra desculpar: pedalar pode e deve sim, ser um ato de muito estilo.

P.S.: Se você não quiser usar capacete, está tudo bem. Não é obrigado por lei e este é um debate bastante controverso – e é, sem dúvidas, assunto para ser discutido mais além.