Tento levar essa bodega com doses cavalares de amor e otimismo. Busco mostrar que adotar a bicicleta transforma a nossa vida de uma maneira linda e irreparável. Evito compartilhar notícias ruins – pautadas na cultura do medo. Mas hoje não. Hoje não vai dar. Tô puta, tô com raiva e tô sentindo muita dor de existir como mulher e ciclista.

Perdemos uma ciclista em São Paulo. Perdemos Mariana. Uma Mariana que não conheci, mas era certamente ousada. Porque na nossa sociedade doente e com prioridades em posses e não em vida, ser ciclista e mulher é um ato de ousadia.

Mariana não foi a primeira e tampouco será a última. Quando um ciclista morre, todo mundo que pedala morre um pouquinho. Sempre dói. Quando uma mulher ciclista morre, eu fico dilacerada. Não é que uma vida feminina valha mais – aparentemente, é justamente o contrário – mas é que entendo tanto que é como se fosse comigo.

Ser ciclista é ousado porque você reivindica o direito à cidade e às ruas. Ele é seu por lei, mas longe disso na prática. Ser mulher e ser ciclista é ousado porque você não só assume a rua, mas também a sua autonomia de ir e vir como e bem entender. Você assume que você sua, que você fica feliz, que você manda no seu destino. Isso é um ato de rebeldia. E, devido ao seu péssimo comportamento, você é punida com assédio, com finas de motoristas e com comentários ‘amigáveis e preocupados’ do tipo ‘mas você não tem medo de te assaltem?’ ou ‘e se alguém te estuprar?’.

E, caso você seja assaltada, estuprada ou abalroada e morta, você terá centenas de pessoas para reivindicar o status quo de volta e lembrar a todas as outras que você apenas recebeu o destino que buscou.

Não me importa se tem ciclofaixa, se tem ciclovia, se tem ou se não tem capacete. Uma cidade, um trânsito e uma lei que permite que pessoas se vão cedo demais, não está certa. Está longe de estar. Numa sociedade em que uns enterram pessoas queridas e outros reclamam que não têm lugar para estacionar, algo precisa mudar urgentemente.

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