medo
via Planeo.

Era aniversário de uma amiga muito especial e a comemoração seria no Centro – uns 8 ou 9km da minha casa. O tempo, há dias, intercala entre infinita chuva e um detestável chove-não-molha. Sou acostumada a pedalar na chuva e sei bem das manhas para me virar: levo outra roupa, se precisar outro sapato. Tenho capa, refletivos exagerados e uma certa experiência com freios que não respondem tão bem e motoristas despreparados. Mas este dia não. Neste dia parecia não ter nenhuma destas aptidões.

Não sei ao certo se foram os muitos dias chuvosos e preguiçosos, em que mal saí de casa para pedalar e então adquirir as endorfinas que me deixam viva ou se foi apenas a encomenda do combo neurose-coletiva-urbana, que inclui os famosos medos de ser assaltada, ser atropelada e de levarem minha bicicleta. Ainda pedi o combo com adicional de ‘e se furar o meu pneu no caminho?’ e, por mais R$0,50, veio também o ‘onde você deixar a magrela?’. Bom, tudo que sei é que, definitivamente, não estava disposta a pedalar para o encontro.

Me preparei como se fosse uma personagem do Tarantino em busca de vingança: matutei a roupa, separei o guarda-chuva com nuvens desenhadas, coloquei botas e também lenço no pescoço. Saí um pouco antes, porque sabia que teria fila e decidi fazer um parte do trajeto a pé. Cogitei tomar um Dramin, porque sou tão habituada a pedalar, que o freia-anda do congestionamento me deixa enjoada (mas não posso tomar, senão fico drogada por 40 horas).

Andei um pedaço e cheguei no terminal de ônibus. Devo confessar: ainda que aos trancos e barrancos, busco ter uma mentalidade de abundância na vida, mas pode-se dizer que um terminal de ônibus como o nosso é a síntese da mentalidade da escassez. Tudo falta. Faltam lugares para esperar o ônibus, faltam lugares para sentar, faltam horários e trajetos decentes. Faltam ‘bom dias’ aos motoristas e cobradores.

Daí, no meio da cilada, me lembrei porque pedalo apesar da chuva. Me lembrei do porque as pessoas sonham em ter um carro e se endividam para manter um. No caminho, tive tempo de pensar na vida e montar este texto todo na cabeça. Também fiquei apertando o soltando a minha coxa, como se fosse uma criança com uma colher e um pedaço de gelatina. Não pedalar também tem dessas.

Também deu tempo de morrer de ódio de ver um monte de motorista sozinho no carro reclamando ‘do trânsito’. Repeti a velha frase ‘você não está preso no trânsito, você é o trânsito’ como se fosse um mantra. Fiquei menos enjoada do que pensei. Reparei numa jovem mãe que brigava com o filho enquanto lia no Instagram porque deveria evitar os grãos em sua dieta. Os jovens me irritavam pelo simples fato de serem jovens. Um homem estava muito chateado com o colega de trabalho. Foi uma jornada e tanto, mas cheguei.

A verdade é que, de fato, demanda de um ato de coragem andar de bicicleta. É menos temeroso do que parece, mas são muitas as neuras enraizadas na cabeça. São muitas notícias trágicas, que antes chegavam pela TV, mas agora chegam também pelo Facebook e pelo whatsapp.

Agora se tem algo que precisa de uma bravura indômita, é essa ideia de sair de ônibus ou de carro para andar míseros 9km. Então, fica aqui o conselho: se você estiver com medo, com pressa, com sono:  vá de bike.

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