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Maria E. Ward – ciclista e escritora do livro ‘Bicycling for Ladies’ de 1896.

O que a bicicleta faz: Sobre rodas, você tem logo um sentimento de responsabilidade. Pode fazer o que quiser dentro de limites razoáveis; a todo momento precisa julgar e determinar pontos que antes você não tinha de considerar; consequentemente, você se torna alerta, ativa, com a visão aguçado e intensamente viva, tanto com relação aos direitos dos outros quando aos seus próprios.”

Maria E. Ward – 1896

Ser mulher não é tarefa fácil. Qualquer saída para ir a padaria pode se tornar uma missão de constrangimentos e assédios tão medievais que fica difícil de acreditar que ainda existam. Ser mulher e usar a bicicleta pode ser ainda mais desafiador, porque vivemos em uma sociedade com valores completamente distorcidos, que acredita que a rua é a extensão da sua casa – logo particular – e a mulher que pedala, desnuda da armadura metálica, é pública.

Pedalar na rua exige uma baita resistência mental e emocional, porque além dos problemas sofridos por todos os ciclistas – como ser desrespeitado por motoristas ou sofrer com a falta de infraestrutura – temos que escutar um milhão de vezes o quão ‘gostosa’ somos ou tudo que planejam fazer com os nossos corpos expostos e em movimento.

Porém, pedalar liberta as mulheres. Porque de bicicleta somos livres. Somos lindas. Somos tudo aquilo que desejamos ser.  Mas ainda é difícil, ainda somos desencorajadas com os sutis ‘você não tem medo de andar sozinha e ser estuprada?’.  Temos medo sim, mas pedalamos apesar disto.

Esta é grande briga da minha vida: colocar mais mulheres em cima das bicicletas. É por isto que escrevo este blog, é por isto que saio de vestidinho e é por isso que eu vivo. Não meço esforços em encorajar uma amiga, uma conhecida ou qualquer outra mulher. Todas que pedalam são minhas amigas – não compro a ideia de competição feminina mais.

Não tolero nenhum ‘pedala bem para uma mulher’; não aceito ‘por que você leva alforjes, para carregar o secador de cabelo?’ e fico ofendida com o ‘você carrega a câmara, mas sabe trocar o seu pneu sozinha?’. Não admito fotos que objetificam mulheres e as colocam como carne em cima das magrelas – para comemorar, veja bem, o dia da mulher.

E se você acha que é paranoia de feminazi reclamar do machismo no mundo das bikes, repare quantas somos nas bicicletadas, nos Audaxes, indo pedalando para o trabalho ou para uma festa. Não é porque as mulheres não querem, é porque elas ainda temem, ainda não acreditam que podem.  Repare nos eventos esportivos: quando existe categoria feminina, a premiação é inferior e muitas vezes distorcida. A prova de subida do Rio do Rastro, por exemplo, premia o primeiro lugar masculino com uma bicicleta esportiva (R$5 mil) e o primeiro lugar feminino com uma bicicleta de passeio ($250 – preço em dólar). O cenário no ciclismo de elite é ainda mais tenebroso. As atletas de elite precisaram fazer uma petição para ser criado o La Course, uma singela versão feminina do Tour de France. Enquanto as provas masculinas existem desde o final do século 19, o primeiro campeonato mundial feminino foi só em 1956.

Portanto, mulheres, parabéns! Continuem pedalando e encorajando as outras a fazerem o mesmo. Esqueça a competição que tanto nos ensinam. Vamos nos unir cada vez mais e transformar a cada dia, a cada trajeto feito, esta triste realidade. Apesar das inúmeras barreiras, todos os dias vejo mais e mais mulheres em cima de uma bicicleta e com isto, acredito num futuro melhor. Preparem-se, em breve seremos milhões. Esta luta só acaba quando termina.

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